Publicada em 06/11/2026

Relatos de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso mostram decisões diferentes diante de custos elevados, incertezas climáticas e perspectivas de comercialização; planejamento começa ainda durante o plantio da soja.
A segunda safra de 2027 começa a ganhar forma nas propriedades rurais brasileiras antes mesmo da conclusão do plantio da soja. Entre produtores que procuram preservar a janela do milho, agricultores interessados em culturas de menor investimento e casos em que a própria implantação do cereal está sendo reconsiderada, o planejamento do próximo ciclo revela estratégias distintas para enfrentar riscos climáticos, custos elevados e incertezas sobre a rentabilidade.
A diferença aparece em relatos reunidos pelo Notícias Agrícolas nas últimas semanas, por meio de entrevistas com produtores e representantes do setor. Em Paracatu (MG), há quem considere substituir o milho comercial pelo milheto, destinado à formação de palhada. Em Jataí (GO), a antecipação do plantio da soja favorece a manutenção e a possibilidade de ampliação da área de milho. Já em regiões de Mato Grosso, cresce o interesse por gergelim e feijões-mungo, alternativas que exigem menos capital inicial e oferecem maior flexibilidade de semeadura.
Esses movimentos não representam necessariamente uma tendência de redução da área nacional de milho. As diferenças regionais mostram, porém, que a decisão sobre a segunda safra depende de uma combinação de fatores que vai além do calendário agrícola. O produtor precisa avaliar a disponibilidade de recursos, as condições de comercialização, os riscos de produção e o retorno esperado de cada cultura.
Em Paracatu, no Noroeste de Minas Gerais, o produtor rural João Luiz Pinton relatou ao Notícias Agrícolas, em entrevista de 26 de outubro, dificuldades que começam ainda na implantação da soja. Na ocasião, as áreas de sequeiro enfrentavam restrições de umidade, com atraso nas operações em parte das propriedades.
O problema climático se soma à pressão financeira. Segundo Pinton, produtores da região vêm reduzindo o uso de fertilizantes diante dos custos elevados e dos preços de comercialização considerados insuficientes. Em alguns casos, agricultores chegam a implantar lavouras sem adubação, uma decisão que pode comprometer o potencial produtivo dependendo das condições de fertilidade do solo e das exigências da cultura.
Na própria propriedade, Pinton ainda não havia adquirido os insumos necessários para a segunda safra de milho. Uma das possibilidades consideradas era substituir a produção comercial pelo cultivo de milheto, utilizado para formação de palhada e conservação da umidade do solo. A decisão dependeria da evolução dos preços e das perspectivas climáticas nos meses seguintes.
O caso mostra uma mudança importante no planejamento: a escolha da cultura seguinte não depende apenas de haver tempo para realizar o plantio. Ela também precisa caber no orçamento e oferecer uma perspectiva de retorno que justifique o investimento.
A preocupação encontra respaldo em avaliações recentes do mercado de fertilizantes. Durante o 20º Simpósio Sindiadubos NPK 2026, realizado em outubro, representantes do setor projetaram retração de 10% a 15% nas entregas brasileiras de fertilizantes neste ano, depois do recorde de 49,1 milhões de toneladas registrado em 2025.
A estimativa reflete um ambiente de custos elevados, juros altos e margens agrícolas pressionadas, embora uma redução nas entregas não signifique necessariamente uma queda equivalente na adubação efetivamente aplicada nas lavouras.
Em entrevista anterior ao Notícias Agrícolas, Valter Casarin, coordenador científico da iniciativa Nutrientes para a Vida, destacou a importância de conhecer as condições de fertilidade do solo antes de reduzir doses de nutrientes. Ajustes podem fazer parte de um planejamento técnico, mas cortes realizados sem avaliação agronômica aumentam o risco de comprometer a produtividade.
Em Mato Grosso, a busca por alternativas ao milho ganhou um componente diferente. Em entrevista ao Realidades da Safra, divulgada na quarta-feira (4), Itacir Campos, gerente comercial de originação, relatou aumento da procura por sementes e contratos de gergelim e feijões-mungo para a segunda safra de 2027.
A movimentação é observada especialmente em regiões onde a disponibilidade de chuvas limita a janela mais favorável ao milho. Em Canarana, no Leste mato-grossense, a diversificação já faz parte do sistema produtivo há vários anos, com o gergelim ocupando áreas que apresentam maior risco para o cereal.
O custo de implantação é um dos principais atrativos. Segundo Campos, o investimento no gergelim varia entre R$ 1 mil e R$ 1,2 mil por hectare, dependendo das práticas adotadas. Para comparação, ele estima aproximadamente R$ 3,5 mil por hectare em lavouras de milho com elevado nível tecnológico.
A diferença representa menor necessidade inicial de capital, mas não significa automaticamente maior rentabilidade. A decisão também depende da produtividade alcançada, dos preços recebidos, dos custos operacionais, das condições de comercialização e do risco de cada cultivo.
Além do menor investimento, gergelim e feijões-mungo apresentam exigências hídricas inferiores às do milho e podem ser alternativas para áreas liberadas mais tarde pela soja, inclusive no começo de março, conforme as condições de cada região.
A comercialização antecipada também entra no planejamento. Campos destacou que produtores interessados nessas culturas procuram estabelecer contratos com compradores antes da semeadura, buscando maior previsibilidade sobre a receita da segunda safra.
"Nós tivemos uma movimentação grande nos últimos dias de produtores justamente por conta das incertezas e das variações de preço, buscando contratos e negociações antecipadas", afirmou o entrevistado.
Apesar do interesse crescente, ainda não há confirmação de quanto dessa procura poderá se transformar em expansão efetiva da área cultivada em 2027.
Enquanto parte dos agricultores estuda alternativas, produtores de outras regiões trabalham para garantir condições favoráveis à implantação do milho.
Em Jataí, no Sudoeste de Goiás, a produtora rural Lia Katzer relatou ter antecipado o plantio da soja para o início de outubro, concluindo os trabalhos em sua propriedade no dia 16 daquele mês. A estratégia foi adotada para aproveitar a umidade disponível e melhorar as condições de implantação da segunda safra.
Com a soja estabelecida mais cedo, Katzer pretende manter o cultivo de milho em toda a área destinada à segunda safra, considerando inclusive uma possível ampliação. A concretização desse planejamento, entretanto, depende do desenvolvimento da oleaginosa até a colheita e da distribuição das chuvas.
A produtora também relatou ajustes na adubação, levando em consideração a fertilidade construída ao longo dos anos, além de aumento nos custos de controle de plantas daninhas resistentes.
Em Mato Grosso, o cenário estadual igualmente apresenta condições que favorecem a manutenção do milho. O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) destacou, em relatório analisado pelo Notícias Agrícolas na terça-feira (3), que o avanço do plantio da soja acima do ritmo observado nos últimos anos pode permitir a liberação antecipada das áreas para a segunda safra.
O instituto projeta 7,48 milhões de hectares de milho no estado na temporada 2026/27, crescimento de 0,59% em relação ao ciclo anterior. A expectativa, portanto, ainda é de ampliação da área, apesar dos riscos associados ao comportamento do clima.
As diferenças entre as propriedades mostram que o avanço nacional ou estadual do plantio não elimina os problemas localizados. Enquanto algumas regiões conseguem preservar o calendário mais favorável, outras enfrentam restrições de umidade ou preocupações com a continuidade das precipitações.
A escolha da cultura também depende do momento comercial. No milho, a expansão da demanda das indústrias de etanol representa uma perspectiva de sustentação do consumo doméstico, mas não assegura necessariamente preços mais elevados no período em que o produtor precisa negociar a produção.
Análises reunidas pelo Notícias Agrícolas nesta semana apontaram que parte das usinas já possui cobertura de matéria-prima para os primeiros meses de 2027. Ao mesmo tempo, produtores ainda mantêm volumes de milho armazenados, enquanto as oportunidades de exportação e a concorrência internacional influenciam as perspectivas de preços.
Em entrevista ao Notícias Agrícolas nesta quinta-feira (5), Cristiano Palavro, da Pátria Agronegócios, destacou que a antecipação do plantio da soja poderá proporcionar uma das melhores janelas já observadas para a segunda safra de milho no Centro-Oeste. Segundo o analista, caso não ocorram problemas climáticos durante a colheita da oleaginosa, o milho de 2027 poderá começar a chegar ao mercado brasileiro já em maio, antecipando a disponibilidade do cereal.
Essa perspectiva reforça a importância do planejamento comercial. Palavro avalia que os contratos futuros ainda apresentam oportunidades de proteção, citando o milho para setembro de 2027 negociado na B3 próximo de R$ 75 por saca. Para o analista, os produtores devem acompanhar as possibilidades de fixação de preços antes da entrada da nova produção, especialmente diante da expectativa de uma janela favorável ao cultivo no Centro-Oeste.
Essa combinação acrescenta uma variável ao planejamento: o investimento na segunda safra precisa considerar não apenas o potencial de produção, mas também a possibilidade de comercialização e o período em que a receita estará disponível.
As operações de barter aparecem entre as ferramentas utilizadas para organizar essa exposição financeira. Em entrevista ao Bom Dia Agro, Flávio Antunes, gerente de operações de barter da Corteva, destacou a importância de avaliar a relação de troca entre grãos e insumos, permitindo ao produtor conhecer antecipadamente parte dos custos de produção.
O planejamento também começa a alcançar o ciclo seguinte. Levantamento divulgado nesta semana pela Agrolink, com informações do analista Jeferson Souza, aponta que aproximadamente 33% da demanda de cloreto de potássio de Mato Grosso para 2027/28 já teria sido adquirida, enquanto as compras de sementes e defensivos seguem menos avançadas.
O mesmo levantamento indica piora recente na relação de troca da soja pelo fertilizante, de referências próximas de 21 para aproximadamente 23 sacas por tonelada de cloreto de potássio. Os números representam a avaliação do analista e mostram como o momento da compra pode alterar a quantidade de produção necessária para financiar o próximo ciclo.
O conjunto dessas decisões revela um desafio que começa muito antes da colheita: preservar a capacidade produtiva sem assumir compromissos financeiros incompatíveis com as perspectivas de receita.
Para a segunda safra de 2027, os relatos mostram caminhos diferentes. Há produtores procurando maximizar o potencial do milho, outros buscando culturas de menor exposição climática e financeira, e agricultores que consideram reduzir o investimento comercial para priorizar a manutenção do sistema produtivo.
O resultado dessas estratégias dependerá da evolução do clima, dos mercados e dos custos nos próximos meses. Por enquanto, a principal constatação é que o planejamento da segunda safra já está em andamento e suas decisões estão sendo influenciadas tanto pelo risco de produzir quanto pelo risco de investir.
Fonte: Notícias Agrícolas
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